terça-feira, 31 de outubro de 2017

CORTEJO DE OFERENDAS AO HOSPITAL ALFÂNDEGA DA FÉ POR ALDEIAS E VILA

A organização de Cortejos como meio de apoio à construção de obras de interesse público

6-A construção do Quartel dos Bombeiros

O Cortejo de Oferendas em favor do Hospital

Uma foto rara do Cortejo de Oferendas a favor do Hospital


O Dr. Faria interessou-se particularmente pela construção do Quartel dos Bombeiros Voluntários e pela reconstrução, ou mais correctamente, ampliação, do Hospital da Santa Casa da Misericórdia.
Estas duas questões aparecem logo na revista “Ao de Leve”, como pode ver-se pelas passagens “Jeremias entrego-te os bombeiros, mas tem cuidado não dês com eles em droga!” e “O hospital que seja o nosso orgulho, ouviu Sr. Dr. Miranda”, dirigidas a duas figuras igualmente importantes de Alfândega da Fé, Jeremias Ferreira, que foi durante décadas Comandante dos Bombeiros Voluntários de Alfândega da Fé e uma figura destacada da Liga dos Bombeiros Portugueses e ao Dr. Mário Miranda, um médico que trabalhou no concelho durante décadas, um verdadeiro “João Semana” da medicina.

O Hospital da Misericórdia e Centro de Saúde, já nos anos 80
O Hospital da vila começou a ser construído no início do ano de 1929, conforme nos diz o professor João Vilares numa notícia publicada no jornal Trás-os-Montes, em 15 de Janeiro de 1929, de que extraímos o seguinte excerto: “Anda a construir-se um edifício para instalar o hospital do Concelho de Alfandega da Fé. A ideia vem de há anos. Por meio de receitas teatrais e outros donativos, arranjou-se algum capital (…) Um hospital é um dos grandes melhoramentos dum concelho, mas é preciso muito dinheiro para o manter. A terra Alfandeguense é pequena em área, mas felizmente tem recursos, -fortunas avultadas que muito podem fazer em benefício da grande obra”
Em 15-11-48, uma notícia de Sambade, no Jornal Terras Bragançanas, diz o seguinte: “No cortejo de oferendas que no dia 8 do corrente se efectuou a favor do Hospital da Misericórdia de Alfandega da Fé, esta freguesia foi um das que mais brilhantemente se comportaram.
Tomou parte nele a banda de musica da Casa do Povo, um rancho folclórico composto por 40 pares, levando cada rapaz e cada rapariga uma bandeira com uma quadra popular alusiva ao acto e no meio de uma nota de 50$00, além doutras ofertas. O conjunto deste numeroso grupo com os seus cantares, produzia um efeito maravilhoso. Atrás dele seguiam 30 carros de géneros diversos: cereal, batatas, um bidom de azeite, uma pipa de vinho, lenha e até um carro conduzindo um porco vivo. (…) O rendimento das ofertas desta freguesia deve ter sido além de 20 contos, pois só o importante proprietário, Sr. Mário Pimentel contribuiu com 10 contos em género e em dinheiro.”
Este cortejo destinou-se à angariação de fundos para fazer obras de ampliação no Hospital e envolveu todas as freguesias do concelho. Através da notícia acima transcrita podemos imaginar o impacto que esta iniciativa teve no concelho e a capacidade do Dr. Faria para organizar uma iniciativa de tão grande dimensão. As contradanças destes cortejos eram ensaiadas na “casa dele que era muito grande e tinha um terraço na parte de trás”, como refere Horácio Pires.
O cortejo de oferendas deu origem a vários hinos dedicados às zonas mais importantes da Vila.
A recolha destes hinos está efectuada, também com o propósito de um dia se proceder à sua publicação e até edição áudio. Por agora deixamos apenas o texto do Hino de Alfândega da Fé, cuja melodia foi, como os restantes, organizada com o ritmo das marchas lisboetas.

  

HINO DE ALFÂNDEGA DA FÉ


Nobre vila aos pergaminhos
Da tua excelsa nobreza
Podes juntar-te orgulhosa
Tendo do bem a riqueza.

Todos unidos, avante
Vê-de se há mais belo ideal
Se cantar o pranto a quem chora
É banir da terra o mal.

Ó que rosários infindáveis
De Avé-Marias, Pai Nossos
Nos olhos dos pobrezinhos
Beijando de longe os nossos.

Viva a jornada do bem
Que em prol  da pobreza é
Viva a nossa linda festa
Viva Alfândega da Fé.



Carnaval de 2009. Recordando o Dr. Faria.
Manuel Vicente Faria

O animador cultural
que marcou o século XX
em Alfândega da Fé

PARTE III 

Termino hoje o apontamento sobre o Dr. Manuel Vicente Faria, editando as letras das músicas que ele escreveu e musicou.
Uma vez que as melodias estão gravadas, numa próxima oportunidade (quando arranjar alguém que me faça esse trabalho…) acrescentarei os dados musicais que permitirão que este património não se perca.

Tanto quanto pude apurar, e nisso a ajuda de Avelino Jaldim foi preciosa, só faltará aqui um texto que o Dr. Faria escreveu (e musicou) sobre Sambade, a propósito da destruição dos sinos da Igreja devido à queda de uma faísca.

Carnaval de 2003.
No Carnaval de 2003 houve uma primeira tentativa de recordar as danças e o ambiente da época do Dr. Faria, mas seria em 2009, também no Carnaval, que um grupo de mulheres se empenhou a ensaiar novamente quase todas as músicas às quais se acrescentaram alguns passos de dança que certamente ficaram muito aquém daquilo que foi originalmente apresentado. De qualquer forma, as músicas, as danças e os carros a simbolizar os bairros da Vila antiga constituíram possivelmente a única homenagem que já se prestou ao Dr. Faria, mas isso foi suficiente para juntar centenas de pessoas que assistiram com agrado à iniciativa e cumpriu-se, dessa forma, o desejo dos versos da bonita canção Despedida:
“Deus permita que não se esqueçam de mim
e que me possam de vez em quando lembrar (…)”


Carnaval de 2009. Momento em que foram cantadas e dançadas as músicas do Dr. Faria.
















8-LETRAS DAS MÚSICAS DO DR. FARIA


CASTELO


I
Sou o solar da nossa terra abençoada
o berço heróico dos lendários cavaleiros
que pela fé e pela honra mais sagrada
um dia ergueram seus montantes de guerreiros.

II
E recordando nobre exemplo desde então
ouvindo do clarim o som de unir fileiras
nos lábios um sorriso aberto ao coração
aqui vão do castelo as pedras derradeiras.

III
Já não tenho ameias
nem tenho guaritas
as torres caíram
vieram desditas.

IV
Mas essa alma antiga
que o mundo assombrou
perdura intangível
e a alma ficou.

V

Se fizeres o bem

é nobre ideal
cá vamos também
dar ao hospital.

VI
E o nobre castelo
embora velhinho
sente orgulho em dar
também um poucochinho.

 

PORTELA (I)


I
Portela garrida
trago em mim a vida
mais bela e mais sã
na minha alma pura
não há noite escura
é sempre manhã.

II
De sedas não visto
por isso resisto
do tempo aos rigores
nem jóias conheço
mas sei dar apreço
às mais raras flores.

III
Baila contente, ó Portela,
não tenhas medo a ninguém
quem disser que não és bela
não tem gosto ou não vê bem.

IV
Como d´aurora estival
as fulgurantes centelhas
são as alegres cantigas
das nossas bocas vermelhas.

PORTELA (II)


I
Vem já de tempos passados
a fama de que a Portela
é alegre e dançarina
fagueira e ladina
sem nunca ser bela

II
Mas nem só cantos e risos
aqui se vêem passar

também sabe fazer bem

sem olhar a quem
hoje o vem provar.

III
E à noite depois da ceia
faz-se na meia, doba-se o linho,
no largo de fato novo
junta-se o povo nesse cantinho

IV
E ao som do realejo, troca-se um beijo
dança-se nela,
nas eiras, os namorados, apaixonados
eis a Portela.

ADRO


I
Cá vai o Adro também na festa
é o mais alegre ninguém contesta
todo florido como um rosal
cá vai o bairro do hospital.

II
Não houve ainda obra como esta
festa tão linda, tão linda festa
é o mais alegre, ninguém contesta
cá vai o Adro, o rei da festa.

III
E dar aos pobres tudo o que consola
por entre risos e canções famosas
fazem esquecer o amargor da esmola
e fica-lhe a saber a pão de rosas.

IV
Novos do Adro como a luz do dia
em nossas almas juvenis canções
fazem esquecer o amargor da esmola
que nos aquece os nossos corações.


BAIRRO DO CENTRO

I
Somos do bairro do Centro
desta Vila o coração
que cantando o hino à vida
é a mais sublime oração.

II
Rapazes e raparigas
haja alegria pr’a longe o mal
canta e ria quem trabalha
sem desalento p’ró hospital.

III
Ó raparigas vossas magias
são um rebol
raras magias de estivais dias
sem pôr do sol.

IV
Rapazes todos folgar a rodos
hoje é que vale
só o bem desperta
a linda festa do hospital.


HINO DE ALFÂNDEGA DA FÉ


I
Nobre vila aos pergaminhos
da tua excelsa nobreza
podes juntar-te orgulhosa
tendo do bem a riqueza.

II
Todos unidos avante
vê-de se há mais belo ideal
se cantar o pranto a quem chora
é banir da terra o mal.

III
Ó que rosários infindáveis
de Avé-Marias, Pai Nossos
nos olhos dos pobrezinhos
beijando de longe os nossos.

IV
Viva a jornada do bem
que em prol da pobreza é
viva a nossa linda festa
Viva Alfândega da Fé.


HINO DO CARNAVAL


I

É Carnaval, raparigas brincai

e vós com elas, vá rapazes, rodai.
Enquanto é tempo, é que é aproveitar
cantai, cantai, bailai, bailai, até fartar.

II
Nós queremos ter muita alegria
em todas as casas folgar
e que haja por nós simpatia
nós só queremos reinar.

III
Venham todos ver nosso rancho
ao vê-lo qualquer um se espanta
a vida é sangue que passa
venham ver a graça
da gente que canta.

REFRÃO

Estalam foguetes
brilham serpentinas
falam de amores
“pierrots” e columbinas.

DESPEDIDA

I
Esta vai por despedida
por despedida esta vai
que todos sejam felizes
esqueçam o que lá vai.

II
Nunca tive a intenção
de ofender com actos meus
por isso do coração
Adeus, Adeus!

III
Não é a minha esta terra que eu bem digo
quero-lhe tanto e não sei por que razão
ai as saudades que eu levarei comigo
mas vou-me embora e cá fica o coração.

IV
Deus permita que não se esqueçam de mim
e que me possam de vez em quando lembrar
que eu peço sempre para vós amigos meus
todas as bênçãos que o Céu nos pode dar.

V
Cantei convosco bailei
fomos sempre camaradas
o que sabia vos dei
com as mãos limpas lavadas.

VI
Vou-me embora mas soltando
este amargo grito aos Céus.
Creio bem que estão escutando
Adeus, Adeus!


Carnaval de 2009. Desfile do grupo pelas ruas da Vila.














Agradecimento.
Agradeço às seguintes pessoas que me forneceram elementos importantes para a organização deste trabalho: Armando Almeida, Avelino Jaldim, Conceição Trigo, Carmo Trigo, Horácio Pires, Jeremias Ferreira (já falecido) e Manuel Cordeiro.
BIBLIOGRAFIA
a)Fontes impressas
REBOREDO, João Miguel Lagoinha (2003); Um Cancioneiro em Estudo, Gailivro, Vila Nova de Gaia.
SILVA, Lourdes da Graça da Cunha e; SILVA, Raul Cunha e (2003); Gentes sem terra, Terra sem gente, edição da Câmara Municipal de Alfândega da Fé.
b)Publicações
Artigos assinados pelo Professor João Baptista Vilares – Colectânea fotocopiada, organizada por familiares.
Boletim Municipal de Alfândega da Fé, nº 2, Julho de 2004.

F. Lopes, 23 de Maio de 2010

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